Trump nomeia Marco Rubio e Tony Blair para 'conselho de paz' em Gaza e ameaça Groenlând...

Governança Global — Oriente Médio

Em meio a negociações para segunda fase do plano de paz em Gaza, Trump anuncia criação de "conselho de paz" com Marco Rubio e Tony Blair para supervisionar t...

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou nesta sexta-feira, 16 de janeiro, a criação de um "conselho de paz" que será responsável por supervisionar o comitê tecnocrático encarregado de administrar a Faixa de Gaza na segunda fase de seu plano para o conflito israelo-palestino. A informação foi divulgada pela Casa Branca e faz parte da estratégia trumpista de avançar com o chamado "Plano de 20 Pontos" para o fim do conflito, que prevê a desmilitarização do Hamas e o estabelecimento de uma administração palestiniana tecnocrata no enclave. O conselho será composto pelo secretário de Estado, Marco Rubio, e pelo ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, numa decisão que reflete a intenção de Washington de envolver atores internacionais de peso no processo de transição em Gaza.O anúncio ocorre num momento em que a primeira fase do plano, que incluiu um cessar-fogo mediado pelos EUA em outubro de 2025, completa três meses de vigência. Segundo o enviado especial norte-americano, Steve Witkoff, a primeira fase "proporcionou ajuda humanitária histórica, manteve o cessar-fogo, devolveu todos os reféns vivos e os restos mortais de 27 dos 28 reféns falecidos". A nomeação de Rubio e Blair para o conselho de paz indica que Washington busca dar um caráter mais institucional e duradouro à sua intervenção no conflito, saindo da esfera puramente militar para abraçar também a reconstrução política e administrativa do território palestino.Paralelamente aos esforços de paz no Oriente Médio, Trump voltou a alimentar tensões com a Dinamarca ao ameaçar impor tarifas comerciais aos países que não apoiarem seu plano para adquirir a Groenlândia. A informação, divulgada pela agência AFP, indica que o presidente americano está disposto a usar seu poder econômico para pressionar aliados relutantes a aceitarem suas ambições territoriais no Ártico. A ameaça ocorre no mesmo dia em que uma delegação bipartidária do Congresso americano chegou a Copenhague para uma visita de apoio à Dinamarca, numa demonstração de que nem mesmo o legislativo americano está alinhado com a estratégia trumpista para a ilha.A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, e o primeiro-ministro groenlandês, Múte Bourup Egede, reiteraram nos últimos dias que a Groenlândia não está à venda e que qualquer decisão sobre o futuro do território cabe exclusivamente ao seu povo. A posição foi reforçada pela União Europeia e pela França, que anunciou o envio de forças extras para a ilha em demonstração de apoio à Dinamarca. A ameaça de tarifas de Trump, no entanto, adiciona uma nova camada de complexidade à disputa, transformando o que era uma questão de soberania e autodeterminação num potencial conflito comercial entre os Estados Unidos e um de seus mais antigos aliados na Europa.A simultaneidade entre o anúncio do conselho de paz para Gaza e a ameaça de tarifas sobre a Groenlândia reflete a abordagem multifacetada da política externa trumpista, que combina diplomacia tradicional com pressão econômica e ameaças unilaterais. Enquanto no Oriente Médio Trump busca envolver atores internacionais de peso como Blair e Rubio para dar credibilidade ao seu plano, no Ártico adota uma postura mais agressiva, disposta a usar instrumentos comerciais para alcançar seus objetivos. A diferença de abordagem pode ser explicada tanto pela natureza distinta dos conflitos quanto pela avaliação da administração americana sobre sua capacidade de influenciar cada cenário.O ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, que já atuou como enviado do Quarteto para o Oriente Médio (composto por EUA, ONU, UE e Rússia) entre 2007 e 2015, traz para o conselho de paz uma experiência acumulada em décadas de negociações no conflito israelo-palestino. Sua nomeação, no entanto, não é isenta de controvérsia: Blair é frequentemente criticado por setores palestinos por sua suposta proximidade com Israel e por seu papel na invasão do Iraque em 2003, quando era primeiro-ministro britânico e aliado de George W. Bush. A escolha de Marco Rubio, por sua vez, reflete a confiança de Trump em seu secretário de Estado, que tem sido um dos principais articuladores da política externa americana.A reação internacional ao anúncio do conselho de paz foi cautelosa. O governo israelense saudou a iniciativa, vendo na nomeação de figuras pró-Israel como Blair e Rubio uma garantia de que seus interesses serão considerados na transição em Gaza. Autoridades palestinas, no entanto, expressaram reservas, lembrando que qualquer solução para o conflito deve passar pelo reconhecimento dos direitos nacionais do povo palestino e não pode ser imposta de fora. O Hamas, que controla Gaza desde 2007, não comentou oficialmente, mas fontes próximas ao grupo indicaram que qualquer administração tecnocrata no enclave precisará de sua aprovação implícita para funcionar.Enquanto isso, na Groenlândia, a população local observa com apreensão as movimentações de Trump. A ilha, que possui ampla autonomia em relação à Dinamarca e já manifestou em diversas ocasiões seu desejo de autodeterminação, vê-se subitamente no centro de uma disputa entre grandes potências que pouco consideram sua voz. O governo groenlandês tem reiterado que qualquer decisão sobre o futuro do território deve ser tomada pelo povo groenlandês, mas na prática a capacidade da ilha de resistir às pressões americanas é limitada, especialmente se Washington decidir usar seu poder econômico para coagir Copenhague.Os dois episódios ilustram a complexidade do momento geopolítico global, com os Estados Unidos atuando em múltiplas frentes simultaneamente e utilizando instrumentos variados para perseguir seus objetivos. Se no Oriente Médio a aposta é na diplomacia e no envolvimento de atores internacionais, no Ártico a estratégia parece ser a de pressão máxima, mesmo que isso signifique desgastar relações com aliados históricos. Resta saber se a abordagem trumpista trará resultados duradouros em qualquer uma dessas frentes ou se, ao contrário, criará novos focos de tensão que se somarão aos já existentes num cenário global cada vez mais fragmentado.